8 jul 2010

Materia Revista Veja ANIMANDI dá destaque a 20 Años

07/07/2010
Cultura
Uma festa bem animadaLetícia Pimenta
Com mais de 100 títulos nacionais em sua 18ª edição, a mostra Anima Mundi reflete o vigor do mercado de desenhos no país
Selmy Yassuda
Os sócios Lieban e Breitman: por trás da série Meu AmigãozãoAté meados da década de 90, o destino dos animadores brasileiros em busca de estabilidade e projeção apontava para uma só direção: os estúdios americanos. Nesse movimento migratório, três cariocas se estabeleceram com êxito nos Estados Unidos: Ennio Torresan e Fábio Lignini, roteiristas do estúdio Dreamworks, de Steven Spielberg, e o renomado Carlos Saldanha, diretor da milionária saga infantil A Era do Gelo. De uns anos para cá, no entanto, o Aeroporto do Galeão deixou de ser a única alternativa para essa turma. O acesso a novas tecnologias e uma série de incentivos financeiros ajudaram a pavimentar o mercado nacional. Outro fator decisivo para a expansão do setor foi o festival Anima Mundi, que surgiu timidamente em 1993 e se tornou a principal vitrine dos profissionais do ramo no Hemisfério Sul. “A mostra é o melhor cartão de visita para entrar no mercado internacional”, afirma César Coelho, um dos quatro fundadores do evento, ao lado de Aída Queiroz, Lea Zagury e Marcos Magalhães, todos hoje na curadoria.
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Confira a programaçãoA organização do evento é um trabalho ao qual eles se dedicam durante boa parte do ano. Além da programação, cada vez mais abrangente (veja os destaques desta edição na página ao lado), o festival convida estrelas internacionais e produtores influentes para participar de palestras e oficinas. A presença deles é uma boa oportunidade para a turma daqui se aperfeiçoar, fazer contatos e apresentar suas criações. Com talento e sorte, a iniciativa pode escancarar portas no exterior, seja na forma de parceria, seja na exposição da obra. O principal convidado desta 18ª edição, com início no dia 16 e previsão de ocupar nove salas de cinema, é o americano Stephen Hillenburg, criador do fenômeno Bob Esponja (a programação completa com datas, lugares e horários pode ser conferida no site de VEJA RIO). Ele vai encontrar um mercado em amadurecimento, como deixa evidente a própria lista de atrações do festival. Dos 452 curtas selecionados, 108 títulos foram confeccionados no país. Um feito e tanto, se comparado aos três primeiros anos do evento, quando não houve filme nacional inscrito.Fique de olhoCom temática densa ou bem-humorada, dez atrações que são destaque na programação
Os Anjos do Meio da Praça, de Alexandre Camargo e Camila Carrossine (Brasil). Nesta bem produzida história de realismo fantástico, o menino Pallu testemunha a queda e o aprisionamento de três anjos na praça central de sua aldeia. Livre
The Lost Thing, de Andrew Ruhemann e Shaun Tan (Austrália e Reino Unido). Conta a história de um menino que encontra uma criatura bizarra enquanto caminha pela praia. Ao procurar um lar para ela, o garoto esbarra na indiferença das pessoas, que mal percebem a presença do estranho ser. 14 anos
Meu Amigãozão, de Andrés Lieban (Brasil). Com produção de André Breitman, a série vai ao ar pelo canal Discovery Kids em agosto. Indicado para crianças em idade pré-escolar, o desenho traz os pequenos Yuri, Lili, Matt e ses enormes amigos, o elefante azul Golias, a girafa rosa Nessa e o canguru verde Bongo, que enfrentam juntos o desafio de crescer. Livre
Tromba Trem, de José Luiz Brandão (Brasil). Projeto vencedor do concurso Anima TV. Um elefante sem memória, uma tamanduá vegetariana e uma colônia de cupins que acreditam ser de outro planeta viajam num trem pela América Latina. Livre
Something Left, Something Taken, de Max Porter e Ru Kuwahata (EUA). Inventiva animação em stop-motion baseada em uma história real. Casal de férias vai a São Francisco e pega carona com um estranho. No caminho, eles suspeitam que o motorista seja um famoso assassino serial americano. Livre
The Little Boy and the Beast (Alemanha). A mãe do pequeno Haro mudou completamente após se separar do marido. Ficou mal-humorada e não brinca mais com o filho. Ao vê-la assim, o menino decide assumir as tarefas domésticas. Ora tira proveito, ora fica exausto com a responsabilidade. 14 anos
Make Down, de Maurice Hübner (Alemanha). Vários tipos de maquiagem surgem e se desfazem no rosto de uma mulher, numa intrigante metáfora sobre as identidades, os sonhos e os medos do ser humano. Daí o título do filme, uma brincadeira com a palavra make-up (maquiagem, em inglês). 14 anos
Point of Mouth, de Midhat Ajanovic-Ajan (Bósnia). A história da Bósnia-Herzegovina pós-II Guerra Mundial é o tema deste divertido curta cuja narração sai da boca de um bebê. Esse cidadão de Sarajevo relembra a infância em sua cidade natal, não importa quão longe esteja. 14 anos
The Spine, de Chris Landreth (Canadá). Com temática pesada e estilo ousado, narra a trajetória de Dan e Mary Rutherford, casados há 26 anos e presos em uma espiral de destruição mútua. Em uma sessão de terapia para casais, uma participante deflagra mudanças na vida dos dois. Quando Mary deixa Dan, ele se transforma. 14 anos
20 años, de Bárbaro Joel Ortiz (Cuba). Animação dotada de excelente fotografia, trilha sonora emocionante e cenografia que reproduz com fidelidade o kitsch das casas de Havana. Realizada em técnica stop-motion, a obra mostra os esforços de uma mulher para reconquistar o amor do marido após vinte anos de casamento. Livre

O ex-analista de sistemas Carlos Saldanha é o exemplo mais bem-sucedido egresso das plateias do Anima Mundi, por onde já passou 1 milhão de espectadores, que assistiram a 5 927 filmes. Em 1991, ele se matriculou na Escola de Artes Visuais de Nova York, sem, no entanto, saber direito qual ramo iria seguir. Foi na mostra carioca que ele descobriu seu interesse pelo cinema de animação, e desde então sua carreira alçou um voo invejável. Em meados dos anos 90, Saldanha se tornou uma das principais forças criativas do estúdio Blue Sky, comprado pela Fox em 1997 e onde ele trabalha até hoje. Está por trás de alguns dos maiores êxitos mundiais do gênero. Sob a direção de Saldanha, A Era do Gelo 2 teve faturamento de 650 milhões de dólares. Seu próximo trabalho será no formato 3D. Batizado de Rio, o filme conta a história de uma arara que troca o conforto de sua gaiola na pequena cidade americana de Minnesota por uma aventura no Rio de Janeiro. A trajetória de Saldanha é um incentivo para as novas gerações do Anima Mundi irem à luta.É preciso persistência, pois se trata de um mercado extremamente fechado. A inserção dos países emergentes nesse Olimpo internacional pode se dar por dois caminhos bem diferentes. No mais comum deles, os grandes estúdios estrangeiros recrutam empresas de pós-produção em busca de mão de obra mais barata, como ocorre na Coreia do Sul e na Índia. Atentos a uma indústria que saltou de 8 bilhões para 80 bilhões de dólares de 1995 até o ano passado, os brasileiros, de maneira geral, optaram por uma segunda via, por sinal bem mais desafiadora: a de criação de conteúdo. É o caso da produtora carioca 2DLab, dos sócios Andrés Lieban e André Breitman. Eles finalizam a primeira temporada da série Meu Amigãozão, orçada em 6 milhões de reais e indicada a crianças em fase pré-escolar. Com 52 episódios de onze minutos de duração cada um, a obra foi feita em parceria com uma empresa canadense. Será exibida pelo canal Discovery Kids América Latina a partir de agosto e pela TV Brasil em 2011. O desenho explora um tema universal, a amizade, o que lhe dá potencial de veiculação em qualquer canto do planeta. “É preciso deixar de lado a ideia de fazer algo em cima das lendas do saci, da iara e do boto. São todas lindas, mas não emplacam lá fora”, receita Breitman. Para dar conta do trabalho, a dupla de sócios ampliou sua equipe de quinze para oitenta funcionários e transferiu a empresa para um casarão de quatro andares na Gávea.
Thiago Facina
A equipe do Copa Studio: elefante, tamanduá e cupins em ação no trabalho de estreia
André Teixeira/Ag. O Globo
O carioca Carlos Saldanha: sucesso em HollywoodA participação de estúdios brasileiros em coproduções internacionais virou uma realidade. Há cerca de dois anos, a paulistana TV Pinguim emplacou a série Peixonauta no canal Discovery Kids e fechou contratos de exibição com nove países do Leste Europeu. Também de São Paulo, o estúdio Mixer criou o Escola para Cachorro em parceria com a TV Cultura e a canadense Cité-Amérique, que vai ao ar pelo Nickelodeon América Latina. Na semana passada, o canal anunciou a exibição da segunda temporada da atração, que contará com 26 episódios. Fundado há apenas um ano e meio, o carioca Copa Studio também traça uma rota promissora. Ele ficou em primeiro lugar no Anima TV, concurso promovido pelo Ministério da Cultura com o objetivo de financiar seriados de animação infantil. O estúdio vai receber 1 milhão de reais do governo federal para custear a produção da primeira temporada do desenho Tromba Trem, prevista para ter treze episódios. A história é centrada em um elefante, um tamanduá e uma colônia de cupins que viajam juntos num trem a vapor pela América Latina. Antes mesmo de delinear todos os personagens, o Copa Studio está em negociação para distribuir a peça no exterior. Do mesmo concurso saíram outros dezesseis pilotos de séries, por enquanto à espera de parcerias para viabilizar sua realização. Ao que tudo indica, o Brasil deixou de ser apenas uma fábrica de criativos curtas caseiros acessíveis na internet para concorrer com os gigantes de um mercado em expansão.

2 comentarios:

  1. A pena é que temos um depoimento un tanto quanto deselegante quanto a opção de se apostar em identidade local, naciinal, como algo universal no depoimento da 2D lab...quase ditador... rsrsrs

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  2. Criação de conteúdo??? ...deselegante e equivocado. Não é dessa vez que que chegamos lá. Continumamos sendo Korea e India sim... Nos roteiros vindos do Canadá, não há cocadas nem palmeiras, nem brincadeiras de pião. Criança sul-americana só vai dar bilheteria quando virar filme da Disney.

    Aí, tem gente que diz que "alienação" é gostar de ver novela ou jogo do Brasil...

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